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Vênus, o mais novo candidato a abrigar vida no sistema solar

Por Jéssica Maes, em 4.04.2018

Os astrônomos já fizeram uma lista com todos os planetas e luas candidatos a abrigar vida no sistema solar – e Vênus não está nela. Com sua pressão atmosférica esmagadora e temperaturas de superfície escaldantes, nosso vizinho menos famoso parece um lugar improvável para ser a casa de algum ser vivo. Mas um novo estudo mostra que estamos olhando para o lugar errado: enquanto a superfície deste planeta permanece completamente inóspita, a atmosfera de Vênus pode ser capaz de abrigar vida microbiana.
Vênus é um inferno, mas nem sempre foi assim. Os modelos climáticos sugerem que o segundo planeta depois do Sol já teve água líquida em sua superfície e um clima habitável por mais de 2 bilhões de anos – tempo suficiente para a vida evoluir. Porém, em algum momento no passado, tudo desandou. Devido a um efeito descontrolado dos gases de efeito estufa, toda a água de Vênus evaporou na atmosfera, o que, por sua vez, aumentou ainda mais o efeito de aquecimento. Hoje, as temperaturas na superfície excedem 450 graus Cº, e a pressão atmosférica é 92 vezes mais pesada do que a que temos aqui na Terra.
Se a vida tivesse surgido em Vênus durante aquele período em que o planeta era minimamente habitável, essa reviravolta cataclísmica provavelmente acabaria com todos os seres vivos, grandes ou pequenos. Mas a pesquisa publicada esta semana na revista científica Astrobiology aponta que há outra possibilidade. Segundo os pesquisadores, alguns microorganismos podem ter ido para as nuvens que cobrem Vênus, onde as condições ambientais são surpreendentemente estáveis.
Hoje, esta pesquisa sugere, podemos ver estes possíveis micróbios sobreviventes em manchas escuras na camada inferior de nuvens de Vênus. O principal autor do novo estudo, Sanjay Limaye, do Centro de Ciência e Engenharia Espacial da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, afirma que eles não estão dizendo que há vida em Vênus, mas o novo artigo sugere que devemos procurar por sinais de vida nas nuvens do planeta.

Vida nas nuvens

A ideia de que a vida possa existir nas nuvens de Vênus não é novidade. O astrônomo Carl Sagan propôs pela primeira vez a ideia em 1967. Anos depois, em 1997, o astrobiólogo David Grinspoon reforçou esta possibilidade. Esta linha de pesquisa em grande parte estagnou devido à falta de evidências, mas um artigo de 1999 sugeriu que condições em altas altitudes congelariam, mas não matariam a vida microbiana. Um estudo de 2004 concluiu que as condições químicas nas nuvens de Vênus ficam dentro dos limites da habitabilidade, na camada entre 48 e 52 quilômetros, onde as temperaturas oscilam entre zero e 60 graus Cº, a pressão atmosférica varia entre 0,4 a 2 atm e nuvens são salpicadas com compostos amigáveis ​​à vida, como enxofre, aerossóis ácidos e dióxido de carbono.
Mas além disso, há algo muito estranho naquelas nuvens: as estranhas manchas escuras de Vênus, que foram detectadas pela primeira vez pelos astrônomos há quase um século. Quando vistas em luz ultravioleta, estas manchas escuras exibem vestígios de ácido sulfúrico concentrado e outras partículas desconhecidas que absorvem luz. Essas manchas persistem por dias, mudando frequentemente de forma e contraste.
Como o novo artigo aponta, alguns micróbios da Terra são capazes de prosperar em ambientes ácidos, alimentando-se de dióxido de carbono e produzindo ácido sulfúrico, condições similares às das nuvens de Vênus. Também sabemos de bactérias com propriedades de absorção de luz. É concebível que conglomerados maciços desses microrganismos transportados pelo ar possam explicar as enigmáticas manchas escuras em Vênus. Alguns microrganismos da Terra, principalmente bactérias, são arrastados para a atmosfera, onde podem permanecer vivos em alturas de até 41 quilômetros. Talvez algo como isso tenha acontecido em Vênus e os microorganismos tenham ficado nas nuvens desde que seus oceanos se dissiparam. Essa ideia não é tão louca quanto parece. Em Tso Kar, um lago salgado de alta altitude no norte da Índia, as bactérias são frequentemente sopradas na atmosfera.
Nós ainda não sabemos se realmente existe vida nas nuvens de Vênus. Nossos instrumentos não conseguem discernir se as partículas são orgânicas ou inorgânicas por natureza. Mas é certamente uma ideia que vale a pena explorar. Uma maneira de fazer isso é implantar a Plataforma Manobrável Atmosférica de Vênus, ou VAMP – um projeto de planador robótico da NASA que voaria como um avião, mas flutuaria como um dirigível pelas nuvens do planeta.
Uma vez levado até a atmosfera venusiana, o VAMP ficaria no ar por cerca de um ano, coletando dados e amostras. Pode até ser equipado com uma variedade de sensores, incluindo um instrumento que pode identificar microrganismos vivos. É possível que o VAMP seja incluído na missão russa Roscosmos Venera-D, que deve ser lançada no final dos anos 2020.
Parece quase impossível acreditar, mas nosso vizinho planetário mais próximo pode realmente ser um dos melhores candidatos para a vida no Sistema Solar fora da Terra.
“Nossas análises comparativas dão suporte às hipóteses de que a biologia de tipo terrestre pode sobreviver dentro e contribuir para as assinaturas espectrais das nuvens de Vênus. Para testar as ideias aqui apresentadas, propomos a necessidade de um estudo químico, bioquímico e microbiológico integrado com foco na sobrevivência e espectroscopia de microrganismos terrestres sob as condições das nuvens de Vênus”, propõem os autores em seu estudo.

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