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quarta-feira, 5 de abril de 2017

Como simples infecções podem desencadear terríveis doenças psiquiátricas em crianças

Doenças psiquiátricas não são sempre causadas por uma disposição pessoal do paciente, como genética e trauma.
Elas podem ser causadas puramente por uma infecção simples, que desencadeia uma resposta autoimune no corpo, atacando estruturas do cérebro. Parece ruim? E é.

O paciente zero

Aos 7 anos de idade, Paul Michael Nelson era um garoto calmo, amoroso e brilhante, que adorava LEGO e origami. Até que, em 2 de março de 2009, ele acordou no meio da noite monstruosamente mudado: pegou uma faca e fez buracos na porta de seu quarto, começou a falar uma língua estranha que ninguém podia entender e tentou arrancar seus próprios dentes.
Seus pais o levaram ao psiquiatra, e o que se seguiu foi uma lista enorme de diagnósticos: TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade), TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), TDO (transtorno desafiador de oposição), transtorno bipolar, autismo, psicose etc.
No entanto, não importa quais medicamentos Paul Michael tentasse, o tratamento falhava. Ele saltava de carros em movimento, quebrava as janelas do seu quarto e não abandonava por nada o comportamento violento e furioso.
Finalmente, os especialistas sugeriram que ele podia não sofrer de um distúrbio psiquiátrico tradicional causado por alguma falha bioquímica inata, mas de uma vasculite – um inchaço dos vasos sanguíneos no cérebro, provocado por uma força externa hostil.
Assim, a família foi enviada para a Universidade de Stanford, nos EUA, onde a reumatologista pediátrica Jennifer Frankovich já tinha alguma experiência em tratar os sintomas psiquiátricos de doenças autoimunes – um cenário assustador em que o corpo ataca o próprio cérebro.
Assim começaram anos de terapia, conduzidos principalmente em uma ala psiquiátrica. Frankovich e sua colega, a psiquiatra Margo Thienemann, primeiro prescreveram esteroides para regular a resposta imunológica de Paul Michael. Os sintomas diminuíram ligeiramente, e seu pequeno corpo inchou. Em seguida, eles fecharam seu sistema imunológico completamente com o medicamento de quimioterapia Rituximab. Para ligá-lo de volta e conter a inflamação, adicionaram imunoglobulina intravenosa, ou IVIG, um sistema imunológico “substituto” feito a partir do sangue de milhares de indivíduos saudáveis.
Frankovich esperava que a abordagem funcionasse, mas o cérebro de Paul Michael ficaria potencialmente danificado, e poderia levar anos para repará-lo. Somente em 2013 o doce e inteligente Paul Michael, resgatado por anos de tratamento, finalmente saiu da ala psiquiátrica. Hoje, um jovem rapaz de 15 anos, ele frequenta a escola pública e espera se tornar um confeiteiro.
Para Frankovich, Paul Michael foi o paciente zero – seu primeiro encontro com um diagnóstico recém-reconhecido e ainda controverso chamado de “síndrome neuropsiquiátrica pediátrica de início agudo”, ou PANS.

Gatilhos psiquiátricos

PANS é uma condição inflamatória que resulta de uma infecção ou algum outro gatilho invasor estimulando o corpo a virar contra si mesmo, atacando estruturas do cérebro.
Durante anos, os cientistas se concentraram em uma única infecção – doença estreptocócica do grupo A – que produzia anticorpos que atacavam a parte do cérebro envolvida na formação de hábitos, resultando em TOC.
Hoje, o paradigma tornou-se uma ideia muito maior que expande nossa compreensão da doença psiquiátrica: um conjunto de infecções e outros gatilhos desconhecidos podem levar à produção de anticorpos e células imunes que atravessam o cérebro.
Dependendo de onde essas respostas imunes aterram e quais estruturas cerebrais bloqueiam, corroem ou destroem, elas podem resultar em uma série de doenças psiquiátricas, incluindo hiperatividade, ansiedade, distúrbios alimentares, alucinações e comportamento autista.

A surpresa

Os cientistas sabem há muito tempo que infecções podem causar doença neuropsiquiátrica. Um dos primeiros exemplos conhecidos foi a sífilis, uma doença sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum. Até aprendermos a tratá-la com antibióticos, era uma das causas mais comuns de demência.
Só que estas doenças são causadas por organismos vivos ativos dentro do próprio cérebro. Livrá-lo de tais organismos cedo o suficiente, portanto, livra as pessoas das doenças. Já Frankovich e seus colegas estavam lidando com outra coisa: danos causados pela resposta imune, incluindo anticorpos, as grandes proteínas em forma de Y que o corpo produz para afastar infecções ou outros invasores estrangeiros.
Quando os sintomas psiquiátricos são causados por distúrbios imunológicos, terapias psiquiátricas padrão que envolvem neurotransmissores normalmente não funcionam sozinhas.
Em vez disso, terapias imunológicas são a primeira linha de tratamento. Em Stanford e em outros lugares, a pesquisa agora é concentrada em criar coquetéis de tratamento que diminuem a inflamação e mantém o sistema imunológico em cheque.

A descoberta inicial

A pediatra Susan Swedo foi uma das primeiras a reconhecer tais tipos de doenças, e a considerar o tratamento dos “autoanticorpos” – anticorpos que atacam o próprio cérebro.
Swedo e seus colegas descobriram que infecção normal por estreptococos podia causar sintomas neuropsiquiátricos em um grupo muito amplo de pacientes, que normalmente não iria desenvolver uma doença mental.
No início dos anos 90, Swedo e sua equipe trataram um grupo de crianças com alguns dos mesmos remédios usados em pacientes como Paul Michael hoje: esteroides como prednisona; plasmaférese, uma técnica para filtrar o sangue e limpá-lo de autoanticorpos; e a administração intravenosa de um novo sistema imunológico saudável com IVIG.

O reconhecimento

Durante anos, essas descobertas receberam muitas críticas de cientistas insistindo que a própria noção desse tipo de distúrbio psiquiátrico causado por infecção era uma fantasia.
A disputa chegou a um ponto importante em 2010, em uma reunião dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA. Nela, os pesquisadores foram capazes de concordar que uma única infecção não era um disparador necessário para os sintomas, ampliando o escopo do fenômeno.
O campo avançou saindo da reunião com um novo nome para a doença devastadora: síndrome neuropsiquiátrica pediátrica de início agudo, ou PANS.

A luta continua

Para atender o diagnóstico para PANS, os pacientes precisam manifestar início dramático ou recorrência de TOC ou transtorno alimentar como anorexia. Eles também precisam ter pelo menos dois de sete sintomas adicionais: ansiedade; anormalidades sensoriais ou motoras; regressão do desenvolvimento; irritabilidade e agressão; deterioração do desempenho escolar; alterações de humor ou depressão; e coisas como micção frequente e insônia. Os médicos também precisam primeiro descartar outros distúrbios, como lúpus ou síndrome de Tourette.
Até 2015, Frankovich e sua equipe lideraram o esforço para criar diretrizes de tratamento para pacientes PANS. A ampla variedade de sintomas significa que a missão para identificar subgrupos e adaptar os tratamentos é árdua, mas a cientista anseia pelo dia em que encontrará uma série completa de biomarcadores sinalizando o risco para a condição.
Esta é uma doença real, mas precisamos de mais pesquisas e testes para entender as melhores terapias. Vamos cruzar os dedos para que não demore tanto, em nome de todas as crianças sofrendo com PANS no mundo. [DiscoverMagazine]
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