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quinta-feira, 23 de março de 2017

Conheça 7 Crenças e Lendas da Cidade de São José: A Quarta Cidade Mais Antiga de Santa Catarina, que Ainda Reserva Seus Mistérios!



Por Marco Faustino

No ano passado, mais precisamente no dia 3 de junho, publiquei um material sobre as lendas da cidade de São João del-Rei, no Estado de Minas Gerais, assim como de uma cidade vizinha. O motivo foi até mesmo bem curioso. Em meados do mês anterior, enquanto eu procurava por casos interessantes na internet, me deparei com uma matéria do site "Uai Noticia", que basicamente é um site de notícias cuja cobertura se estende pela mesorregião do Campo das Vertentes, no Estado de Minas Gerais. Essa matéria contava sobre as lendas e assombrações que semeavam o medo no interior mineiro, e isso me chamou muita atenção. Apesar de não estar acostumado a fazer postagens relacionadas a lendas, visto que tenho preferência por um conteúdo que tenha mais profundidade, e que seja possível verificar realmente os fatos, achei importante que aquele material pudesse ser mais amplamente divulgado.

Assim sendo, resolvi fazer aquela postagem especial para contar a vocês sobre as lendas enraizadas nas ruas das cidades de São João del-Rei e de São Tiago. Além disso, também apresentamos a vocês um espetáculo chamado "Lendas São Joanenses", que promove um trabalho belíssimo para manter a riqueza cultural "assombrosa" da cidade de São João del Rei viva dentro dos corações dos turistas e dos novos moradores locais, ainda que muitos deles sejam apenas temporários, visto que é uma cidade com grande fluxo de universitários. Vale a pena conferir (leia mais: Conheça as Lendas de São João del-Rei e Região: Os Contos e as Assombrações nas Ruas do Interior de Minas Gerais).

Dessa vez, repetindo o processo de procurar por assuntos interessantes para contar para vocês, uma vez que estamos em uma espécie de entressafra de boas notícias sobre o mundo "paranormal" ou "sobrenatural", encontrei um material bem interessante que foi publicado no site do jornal "Hora de Santa Catarina" pela repórter Caroline Stinghen. Na verdade, esse material é um especial em homenagem ao aniversário de 267 anos da cidade, que foi comemorado no último domingo (19). Então com o objetivo de não deixar esse conteúdo ficar restrito apenas aos moradores locais, resolvi trazê-lo para vocês, através dessa postagem, para que possam conhecer um pouco mais sobre essa cidade de Santa Catarina, assim como suas crenças e lendas. Quem sabe vocês não se identifiquem ou conheçam alguma bem parecida que contam na cidade de vocês? Vamos saber mais sobre esse assunto?

Um Pouco Sobre a Cidade de São José, no Estado de Santa Catarina


São José é município do Estado de Santa Catarina, e faz parte da região metropolitana de Florianópolis, litoral do estado, conurbando-se com a capital catarinense, a uma distância de apenas 6 km. De acordo com a última estimativa realizada pelo IBGE em 2013, São José teria pouco mais de 228 mil habitantes e um índice de desenvolvimento humano (IDH) considerado muito alto (cerca de 0,809). Nos últimos anos, a cidade vem sofrendo uma espécie de "boom" imobiliário sendo considerada, portanto, a nona cidade mais verticalizada do país.

Imagem do Google Maps mostrando a localização da cidade de São José, em relação a capital do estado, Florianópolis

De acordo com a última estimativa realizada pelo IBGE em 2013, São José teria pouco mais de 228 mil habitantes e um índice de desenvolvimento humano (IDH) considerado muito alto (cerca de 0,809)
É interessante mencionar, que antes da chegada dos colonizadores europeus, no século XVI, todo o atual litoral do estado de Santa Catarina era habitado pelos índios carijós. Porém, com a chegada dos colonizadores, toda essa situação evidemente mudou. Além disso, com o passar do tempo, a vantajosa posição geográfica da ilha de Santa Catarina, o excelente porto de Laguna, que era muito frequentado pelos navios que iam da Europa para o rio da Prata e o oceano Pacífico, entre outras razões políticas, fizeram com que D. João V, em 1738, formasse com a ilha e terra continental adjacente, uma capitania ou governo separado, independente da Capitania de São Paulo, a qual havia pertencido até àquela época.

Havia uma grande necessidade de se formar uma nova unidade administrativa para garantir a guarda e posse dessas terras. Assim sendo, foi criada a Capitania de Santa Catarina, em 11 de agosto de 1738, sendo que o governo foi instalado em 7 de março de 1739, com a vinda do brigadeiro José da Silva Pais, como seu primeiro governador. O território compreendia os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul até a emancipação deste último como capitania do Rio Grande de São Pedrom em 1760. Os interesses portugueses no sul do Brasil aconselhavam a manutenção e o fortalecimento dos povoados litorâneos. Com tal objetivo, Laguna foi elevada em 1774 à categoria de vila, passando a exercer o papel de posto avançado para a conquista do Rio Grande do Sul. Dali partiram expedições que atingiram a colônia do Sacramento e Montevidéu e, de passagem, arrebanhavam gado e aprisionavam indígenas. A cidade de Desterro, que é a atual Florianópolis, apesar de pequena e pacata continuou como sua capital.

A "Carta do Paraguai", basicamente um mapa criado por um cartógrafo francês, em 1771, mostrando o Brasil meridional
Contudo, um eventual natural adicionaria um "tempero" a mais em termos de colonização. As ilhas do arquipélago dos Açores, em Portugal, sofrendo abalos sísmicos terrestres ou submarinos, estimularam a saída de parte de sua população. Aliado a este fator estaria o precário desenvolvimento econômico da região, o desejo de lançar-se ao mar, mas principalmente o excesso populacional que provocava a escassez de alimentos em determinadas épocas. De 1748 até 1756, em sucessivas levas, chegaram cerca de cinco mil açorianos na Capitania de Santa Catarina, sendo que a maior parte permaneceu no litoral. Os novos colonos receberam doações de terras na ilha e no continente.

As ilhas do arquipélago dos Açores, em Portugal, sofrendo abalos sísmicos terrestres ou submarinos, estimularam a saída de parte de sua população. De 1748 até 1756, em sucessivas levas, chegaram cerca de cinco mil açorianos na Capitania de Santa Catarina, sendo que a maior parte permaneceu no litoral
Foi justamente nesse ritmo que, em 1750, cerca de 182 casais açorianos fundaram a chamada São José da Terra Firme, a atual São José. Em 1755, já existia uma pequena capela, sendo que, atualmente no local, se encontra a Igreja Matriz. O título de freguesia chegou seis anos após a fundação do povoado, em 1756. Em 1833, São José passou de freguesia a vila. Finalmente, em 3 de maio de 1856, São José tornou-se, município. Quantas datas e números, não é mesmo?

Foto antiga de uma praça de São José no ano de 1910

Foto daquela mesma praça acima, porém urbanizada, em 1920
O lado curioso de toda essa história reside justamente na data em que é comemorado o aniversário da cidade. Oficialmente, o aniversário de São José é comemorado no dia 19 de março, a mesma data dedicada ao santo homônimo, e conta-se desde 1750. Contudo, a localidade foi colonizada em 26 de outubro de 1750, por 182 casais açorianos, oriundos das Ilhas do Pico, Terceira, São Jorge, Faial, Graciosa e São Miguel. Resumindo? Muitos acreditam que o aniversário deveria ser comemorado no dia 26 de outubro, mas oficialmente não é isso que acontece.

Em termos econômicos, de acordo com site da prefeitura, a base de sustentação josefense está fundamentada no comércio, indústria e atividade de prestação de serviços, mantendo ainda a pesca artesanal, maricultura, produção de cerâmica utilitária e agropecuária como atividades geradoras de renda. A cidade possui mais de 1.200 indústrias, cerca de 6.300 estabelecimentos comerciais, 4.800 empresas prestadoras de serviços e 5.300 autônomos. Vocês podem conferir algumas imagens áreas de São José, através de um vídeo publicado no canal do Tiago Meurer, no YouTube:




A cidade de São José ainda apresenta um enorme potencial turístico, histórico, cultural e arquitetônico, tendo como destaque o complexo histórico-arquitetônico do Centro Histórico com casarios de origem luso-brasileira dos séculos XVIII, XIX e XX, e de construções isoladas associadas a inúmeras belezas naturais-paisagísticas e aos centros gastronômicos. Enfim, se você gosta de história e for visitar Florianópolis, vale a pena conhecer São José!

As Lendas e Crenças da Cidade de São José, no Estado de Santa Catarina


Agora que vocês conhecem um pouco mais sobre a cidade de São José, assim como um pedaço de sua história, chegou o momento de entrarmos na parte "sobrenatural" da nossa postagem. Lembram que a história da colonização de São José da Terra Firme conta que 182 casais açorianos deram início ao processo do que atualmente conhecemos como São José? Pois bem, eles acabaram trazando uma espécie de "bagagem cultural" extremamente rica em crendices populares e lendas. Assim sendo, juntamente aos contos indígenas, começaram a surgir belas histórias, porém outras tantas assustadoras, que foram transmitidas de pais para filhos, e assim por diante, tomando as ruas, rodas de conversas, mesas de bar e posteriormente foi parar nas páginas dos livros.

Enquanto na Ilha de Santa Catarina brotavam histórias de bruxas, lobisomens e até mesmo do boitatá, em São José também foram propagadas lendas, a partir de pessoas muito religiosas, que viam assombrações. Nesse sentido, o historiador e mestre Vilson Francisco de Farias, atualmente morador de São José, fundou e coordenou o Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que tinha como objetivo difundir a cultura açoriana no Estado, frente à força cultural alemã, que até então, liderava as heranças históricas em Santa Catarina.

O historiador e mestre Vilson Francisco de Farias (de camiseta azul na foto), atualmente morador de São José, fundou e coordenou o Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Vilson Francisco pesquisou e ouviu relatos de pessoas desde Garuva, no Norte, a Sombrio, no Sul. Contudo, ele focou suas pesquisas históricas em São José, lançou livros e afirmou: cidade com referência cultural mais forte, não há. Para suas pesquisas, ele escutou moradores e professores de comunidades da cidade, que lhe contaram um pouco mais sobre os costumes e crenças dos antigos moradores. Muitas delas, inclusive, foram vividas por ele mesmo. Interessante, não?

"Temos dois lados importantes em termos de imaginário e memória de São José. A parte da religiosidade, que é a essência da cultura do Litoral de Santa Catarina, e o viés dos mitos", disse Vilson.

A Coberta d'Alma: Uma Estranha, Porém Bonita, Tradição


Essa seria uma das manifestações mais antigas trazidas pelos açorianos. A princípio a coberta d'alma pode até parecer esquisita para quem não acredita na mesma, mas o objetivo final tem um significado bem singelo. De acordo Vilson, em poucos lugares do Brasil a manifestação, extremamente católica, foi e continua sendo praticada.

Vamos explicar para vocês como isso funciona. Na missa de sétimo de dia de um falecido, seus familiares convidavam um amigo próximo, uma pessoa querida, para usar as roupas de quem morreu. Sim, exatamente isso que você leu. Essa pessoa em questão geralmente se sentava no primeiro banco da igreja, juntamente com os familiares de quem havia morrido. A família se despedia do morto através deste amigo.

Entenderam a dinâmica? Para maiores detalhes, confiram também um interessante documentário chamado "A Coberta d’Alma, um Ritual para os Mortos de Osório", em português, justamente sobre essa tradição, que está disponível para ser assistido no YouTube, em duas partes. É interessante observar que esse documentário foi o vencedor do 1º prêmio DOCTV, e foi realizado entre dezembro de 2003 e março de 2004 sendo apresentado, em rede nacional, na faixa DOCTV da TV Cultura no mês de agosto de 2004. Desde a sua realização, o documentário já foi reprisado inúmeras vezes:






Alternativamente, vocês podem conferir uma resenha desse documentário, feita por Cristian LeandroMetz, da Universidade FEEVALE, clicando aqui.

"Havia uma liberação espiritual. O morto seguiria seu caminho encomendado, e a família seguiria a vida dela. O açoriano era um povo extremamente sofrido. Morria-se muito cedo. As famílias tinham que se recompor para sobreviver. Uma mulher não podia ser viúva, e um homem não podia ser viúvo. Havia um ritual de passagem da morte para poder liberar as pessoas para novos compromissos, e esta era a coberta d'alma", disse Vilson.

A princípio a coberta d'alma pode até parecer esquisita para quem não acredita na mesma, mas o objetivo final tem um significado bem singelo. De acordo Vilson, em poucos lugares do Brasil a manifestação, extremamente católica, foi e continua sendo praticada
"É possível que o ritual ainda seja praticado por famílias mais antigas e religiosas de São José, suspeita Vilson, mas é um ato que não é falado ou comentado por aí. É uma crença é discreta, mas fundamental na vida de muitas pessoas", continuou.

"Estes tempos encontrei um conhecido que não via há muito tempo. E ele disse que éramos irmãos. E eu: Opa, como assim? Ele me lembrou que ele foi a coberta d'alma de um irmão que tive, que morreu aos sete anos, muito tempo atrás. O ato cria um laço", completou.

A Sexta-Feira Santa: Dia de Não Fazer Absolutamente Nada?


De acorco com o historiador, a religião católica é o principal laço das antigas manifestações culturais do Litoral de Santa Catarina. O período de quaresma, neste contexto, ganhava extrema importância na vida dos imigrantes açorianos. Segundo Vilson, um dos rituais mais comuns era não comer carne "verde" ou fresca.

Outro ritual que chama a atenção seria o de "não fazer absolutamente nada" na Sexta-Feira Santa. Muita gente dizia que trabalhar neste dia poderia dar azar. Não poderia varrer, plantar, limpar.

Outro ritual que chama a atenção seria o de "não fazer absolutamente nada" na Sexta-Feira Santa. Muita gente dizia que trabalhar neste dia poderia dar azar. Não poderia varrer, plantar, limpar.


"Se cavasse a terra, por exemplo, sairia sangue", disse Vilson. Aliás, seu próprio pai contou para ele um "causo" que teria ocorrido em terras josefenses há muito, muito tempo atrás.

"Ele falou de um cara que não acreditava nisso de não poder fazer nada. E esse homem, na Sexta-Feira Santa, foi para o mato retirar lenha. A madeira que ele queria estava na beira de um peral. Ele acabou cortando o cipó que dava sustentação para ele. O homem ficou pendurado no vazio, desesperado e pedindo a Deus para que ajudasse. Ele conseguiu se resolver, mas daquela data em diante, nunca mais fez nada na Sexta-Feira Santa. Foi interpretado como castigo, disse Vilson.

A Procissão das Almas: O Presente dos Mortos


Essa é uma história que ganhou o imaginário popular do Brasil inteiro. Há relatos da chamada "Procissão das Almas", em Minas Gerais, no Nordeste, e no Norte do país. A cidade de São José também tem a sua versão. "Há histórias muito parecidas, mas cada uma ganha referências conforme suas regiões", disse Vilson.

Conta-se que a temida "Procissão das Almas" ocorria à meia-noite, na madrugada do Dia de Finados. Ela percorria as ruas ao redor do cemitério da região onde hoje fica o Centro Histórico de São José. Como em quase todas as lendas regionais, ver a procissão não era uma coisa muito boa. A razão disso? Bem, ninguém conseguia confirmar quem realmente eram aquelas pessoas que participavam do cortejo, ou seja, nem todas as pessoas que participam poderiam estar realmente vivas. Em histórias relatadas ao redor do país, os participantes usavam túnicas brancas. O problema maior, no entanto, era se alguma dessas pessoas resolvesse falar com você.

Conta-se que a temida "Procissão das Almas" ocorria à meia-noite, na madrugada do Dia de Finados. Ela percorria as ruas ao redor do cemitério da região onde hoje fica o Centro Histórico de São José. Como em quase todas as lendas regionais, ver a procissão não era uma coisa muito boa

"A pessoa que visse a procissão e recebesse um presente, tinha que abrir e ver o que era. Conta-se que em São José uma senhora, que costumava ficar em sua janela, viu a procissão e recebeu um 'presente'. No dia seguinte ela abriu e era um pedaço de osso de uma canela humana. Quando se recebe este 'presente', era um sinal que a pessoa morreria até o ano seguinte e, então, participava de procissão das almas. Quem ouviu, jura que é autêntico", disse Vilson.

Querendo ou não essa história me lembrou uma outra história que contam em São João del-Rei sobre uma senhora chamada Gertrudes, mais conhecida como "Tia Tude". Ela benzia contra o quebranto, ensinava remédios, fazia companhia a enfermos e, não raro, exercia o papel de alcoviteira.

Tita Tude benzia contra o quebranto, ensinava remédios, fazia companhia a enfermos e, não raro, exercia o papel de alcoviteira
Uma noite, como de costume, estava em seu posto de bisbilhoteira, quando alguém, que ela não tinha visto aproximar-se, bateu a sua porta. Tia Tude abaixou-se, deslizou como uma gata para os fundos, sem fazer o mínimo ruído, e de lá voltou pisando forte, para fazer crer que não estava ali atrás da persiana. Tia Tude, generosa como sempre atendeu. Alguém a entregou uma mera tocha. A velha não deixou de ficar intrigada com o caso. O relógio bateu horas e ela, depois de fechar a porta com sua chave, deitou-se.

No dia seguinte, logo cedo, a primeira coisa que fez foi correr os olhos pelo objeto que lhe entregara o desconhecido, e que ela colocara cuidadosamente em um canto da sala. Seu espanto foi tremendo. No lugar de uma tocha, ali estava, ainda sujo de terra fresca, nada menos que o fêmur de um defunto!

No dia seguinte, logo cedo, a primeira coisa que fez foi correr os olhos pelo objeto que lhe entregara o desconhecido, e que ela colocara cuidadosamente em um canto da sala. Seu espanto foi tremendo. No lugar de uma tocha, ali estava, ainda sujo de terra fresca, nada menos que o fêmur de um defunto!
Tia Tude, transida de pavor, viu nisso um aviso celeste. Contam que nunca mais a sua boca se abriu para falar da vida alheia depois disso. As situações são diferentes, mas me chamou a atenção o papel de um "osso" em ambas as histórias.

A Criança Embruxada: Mulheres Consideradas Bruxas Apanhavam de Rabo de Tatu!


O litoral de Santa Catarina está repleto de histórias de bruxas. Elas cavalgavam nos cavalos durante a noite e faziam nós em seus rabos, ou surrupiavam barcos de pescadores durante a madrugada para fazer suas maldades. O perfil era o mesmo: mulheres chamadas de feias, geralmente as que viviam criticando as pessoas, aquelas consideradas invejosas. Porém, magia que mais pegava era contra crianças. Quando um bebê ou criança pequena ficava doente, e ninguém sabia o que era, a comunidade já tratava de dizer que era coisa de bruxa. Assim sendo, as benzedeiras tinham papel fundamental para quebrar o "fado", o nome que se dá ao "encanto bruxólico".

A médium espírita Laurete Nobre da Silva, muito conhecida e chamada erroneamente, segundo ela, é claro, de benzedeira, contou, timidamente, que antigamente algumas famílias a procuravam para tratar de crianças "embruxadas", em São José. Contudo, ela confessou que tudo não passava de um problema de saúde, que era resolvido com suas receitas e também com seu dom de curar.

O litoral de Santa Catarina está repleto de histórias de bruxas. Elas cavalgavam nos cavalos durante a noite e faziam nós em seus rabos, ou surrupiavam barcos de pescadores durante a madrugada para fazer suas maldades
"A gente sabe que muitas crianças ficavam doentes por causa da higiene, e isso era atribuído à bruxaria", explicou Vilson.

Na época, existia o chamado "mal de sete dias", que acometia os recém-nascidos. Acreditava-se que alguma bruxa, travestida de comadre ou amiga da família, teria visitado a criança para embruxá-la. Para descobrir quem era a bruxa, as famílias josefenses viravam uma vassoura de cabeça para baixo, e colocavam atrás da porta. Curiosamente, essa também é uma antiga superstição para afastar visitas indesejáveis.

"A mulher que começasse a se sentir muito desconfortável, quase desesperada com a vassoura de cabeça para baixo, e tivesse que sair correndo da casa, era a bruxa", disse Vilson.

"A mulher que começasse a se sentir muito desconfortável, quase desesperada com a vassoura de cabeça para baixo, e tivesse que sair correndo da casa, era a bruxa", disse Vilson.


Um pesquisador da cultura açoriana chamado Franklin Cascaes, falecido em 1983, relatou em seus contos que, quando bruxas eram descobertas na região, elas apanhavam de rabo de tatu para aprender a não fazerem mais maldades com crianças. Tenso, não é mesmo? 

Quando se quebrava o "fado", as famílias também costumavam pagar promessas depois que as crianças melhoravam de saúde. Uma das mais populares era reunir ao redor de uma mesa sete inocentes, ou seja, sete crianças puras e sem maldade, para comerem doces muito saborosos.

"Eram sete crianças, como menos de sete anos, ao redor de uma mesa de doces. Eu participei inclusive", contou Vilson.

Um pesquisador da cultura açoriana chamado Franklin Cascaes (à esquerda), falecido em 1983, relatou em seus contos que, quando bruxas eram descobertas na região, elas apanhavam de rabo de tatu para aprender a não fazerem mais maldades com crianças
As lendas também contam sobre dois tipos de bruxas: a terráquea, bruxa por opção própria, e a espiritual – predestinada, devido ao fato de ser a primeira ou a sétima filha de um casal sem varões. De acordo com a tradição, para se evitar essa maldição, a irmã mais velha deve batizar a mais nova.

Aliás assista também a esse interessante vídeo publicado pelo "Hora de Santa Catarina", que mostra Vilson contando um pouco sobre essas histórias, tais como a coberta d'alma, relatos fantasiosos que as mulheres contavam para explicar a razão de estarem grávidas, além de bruxas e lobisomens. Vale muito a pena assistir, acreditem!



Por falar em lobisomem, será que existe um que ronda o bairro Potecas, em São José?

O Lobisomem do Bairro Potecas: Será que Ele Ainda Existe?


Uma das histórias mais comentadas sobre lobisomem por moradores antigos da cidade de São José, e que foi relatada no livro "São José: 250 anos", do próprio Vilson Farias, é de um "causo" que foi ouvido pelas bandas de Potecas:
"Um rapaz foi atacado pelo lobisomem. O rapaz cortou o lobisomem com um canivete, quebrando o encanto. O homem (lobisomem) foi descoberto e fingiu felicidade por se livrar do feitiço. Agradeceu o rapaz e disse que o esperasse, que iria buscar um agrado para compensá-lo. O rapaz desconfiou, tirou a capa e o chapéu que estava usando, colocando-os num pau fincado no meio da estrada. O ex-lobisomem voltou com uma espingarda e atirou na capa, imaginando ser o rapaz (que observava escondido na mata). O rapaz fugiu e contou aos amigos quem era o lobisomem, que acabou indo embora"
Marilene Silva Domingues, 73 anos, filha da "benzedeira" Laurete, também ouviu histórias sobre o lobo amaldiçoado. Ela e a mãe nunca viram o bicho, mas garantem que hoje em dia não existe mais essas coisas, embora há quem acredita na existência do lobisomem.

Uma das histórias mais comentadas sobre lobisomem por moradores antigos da cidade de São José, e que foi relatada no livro "São José: 250 anos", do próprio Vilson Farias, é de um "causo" que foi ouvido pelas bandas de Potecas


"Um pescador da região disse que quando ia pescar, tinha um cachorrão perto da Ponte Debaixo. Ele disse que ia pegar e dar uma surra no lobisomem, para ver quem era. Foi lá e deu uma paulada no bicho. No outro dia, apareceu um homem que estava machucado, e descobriram quem era o lobisomem. Porém, não posso falar quem era", disse a aposentada.

O Fantasma do Engenho: Um Causo AssombrosO


A cidade São José, assim como outras cidades de Santa Catarina, possuía uma quantidade grande de engenhos de farinha, principalmente espalhados no interior da cidade, em bairros como Potecas, Forquilhas, e Serraria.

Atualmente, além do engenho que está exposto no Museu Histórico de São José, os historiadores não têm conhecimento de nenhuma outra estrutura dessas, que ainda exista na cidade. De qualquer forma, um dos engenhos localizados no bairro Forquilhinhas foi palco de uma outra história de assombração ouvida por Vilson, e relatada em seu livro:
"Foi visto um vulto saindo do engenho com uma vela acesa na mão, o mesmo vulto largou-a no chão e sumiu."
Atualmente, além do engenho que está exposto no Museu Histórico de São José (na foto), os historiadores não têm conhecimento de nenhuma outra estrutura dessas, que ainda exista na cidade
O historiador destacou, que apesar de história de fantasma no engenho, o espaço era conhecido por ter muitas histórias felizes.

"Homens e mulheres trabalhavam no espaço durante o período da farinhada. Através das cantorias do engenho, surgiram muitos namoricos. Muitos se conheceram ali e até casaram-se", disse o historiador.

A Casa de Câmara e Cadeia: Um Fantasma Ainda Assombra o Local?


Outro lugar repleto de mistério é a "Casa de Câmara e Cadeia", que hoje se encontra revitalizada e abriga a Casa da Cultura de São José. No período colonial, era justamente nesse local onde eram tomadas as decisões, e no seu subterrâneo, ficavam as celas. O casa fica no Centro Histórico da cidade, e foi construída em 1859. Obviamente, em local com mais de 150 anos há muita história para se contar.

Outro lugar repleto de mistério é a "Casa de Câmara e Cadeia", que hoje se encontra revitalizada e abriga a Casa da Cultura de São José. No período colonial, era justamente nesse local onde eram tomadas as decisões, e no seu subterrâneo, ficavam as celas
O relato a seguir é do historiador Osni Machado, mais conhecido na cidade como "Seu Nini". Da Praça Hercílio Luz, ele apontou a janelinha onde era a cela dos presos e lembrou de um fato descrito no livro "Sinfonia Poética e Prosa", da Academia São José de Letras:
"O caso de mais notoriedade foi o que se deu em 10 de agosto de 1921. Estava cumprindo pena em uma das celas, a primeira ao lado esquerdo, o famoso condenado Domingos Brocato. Fora protagonista, em Lages, no ano de 1902, de um crime, talvez o mais famoso de Santa Catarina. (...) Brocato assassinou Ernesto Canozzi e Olinto Pinto Centeno, duas pessoas muito conhecidas e queridas na sociedade lageana. Esse acontecimento ficou conhecido como 'A Tragédia do Caveiras'. Após ser preso, veio cumprir pena na penitenciária estadual em Florianópolis. Posteriormente foi transferido para a cadeia de São José, onde desentendeu-se com outro prisioneiro, conhecido por João Ruivo, sendo que esse o matou a pauladas enquanto dormia."
O historiador complementou e disse que Ruivo teria arrancado um dos pés da cama para matar Brocato. A história, além de curiosa, dá calafrios em muita gente. Também há quem garanta que a alma da vítima continua presente no lugar.

Enfim, AssombradOs, essas foram as sete crenças e lendas que são contadas na cidade de São José, a quarta cidade mais antiga de Santa Catarina, e que ainda reserva seus mistérios. Como recomendação, caso queiram saber mais detalhes sobre a cidade e sua respectiva história, recomendamos os seguintes livros: "São José: 250 anos" (do autor Vilson Farias), "Sinfonia Poética e Prosa" (de autoria da Academia de Letras de São José), "São José da Terra Firme" (do autor Gilberto Gerlach) e o "Fantástico na Ilha de Santa Catarina" (do autor Franklin Cascaes). Por fim, gostaríamos de agradecer a todos vocês que leram até o fim, e especialmente a Betina Humeres e Caroline Stinghen, por divulgarem um material tão interessante quanto esse.

Até a próxima, AssombradOs!
http://www.assombrado.com.br/2017/03/conheca-7-crencas-e-lendas-da-cidade-de.html

Criação/Adaptação: Marco Faustino

Fontes:
http://horadesantacatarina.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2017/03/especial-de-aniversario-sao-jose-uma-cidade-de-lendas-e-crencas-9750867.html
http://nea.ufsc.br/
http://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/viewFile/57442/34497
http://www.saojose.sc.gov.br
https://pt.wikipedia.org/wiki/Capitania_de_Santa_Catarina
https://pt.wikipedia.org/wiki/São_José_(Santa_Catarina)
https://www.canalicara.com/cotidiano/alem-da-lenda-a-coberta-dalma-8356.html
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