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terça-feira, 12 de agosto de 2014

ZMapp e a África: Os Interesses Comerciais por Trás do Soro contra o Ebola

Nesta entrevista a especialista em ética médica e escritora Harriet Washington conversa sobre os interesses comerciais por trás de medicamentos contra o Ebola, das doenças tipicamente africanas que não recebem atenção e pesquisas, e de como as nações africanas, apesar de serem constantemente utilizadas para testes de drogas pelas indústrias farmacêuticas, dificilmente acabam se beneficiando por estas mesmas drogas.



Ebola está em todas as manchetes nos Estados Unidos. Depois que dois profissionais de saúde americanos foram infectados com o vírus mortal na Libéria, mais meios de comunicação começaram a prestar atenção a este surto que assola os países africanos ocidentais da Libéria, Serra Leoa, Guiné, e agora os relatos mostram que ele esteja se disseminando para a Nigéria. Não existe um tratamento comprovado ou vacina para o Ebola, que até o momento já infectou mais de 1.700 pessoas e matou mais de 930 na África Ocidental.

Mas o que sabemos é que esses dois profissionais de saúde norte-americanos infectados com o Ebola já estão de volta aos EUA se recuperando e recebendo um soro experimental conhecido como ZMapp. De acordo com a BBC, a Organização Mundial de Saúde (OMS) vai convocar uma reunião de especialistas em ética médica na próxima semana para decidir se aprova ou não o tratamento experimental para o Ebola.

Agora se juntando a nós de Nova York para desconstruir as questões em torno do vírus Ebola, a nossa convidada, Harriet Washington. Harriet é uma especialista em ética médica e autora do livro "Apartheid Médico: A História Negra da Experimentação Médica em Negros Americanos da Época Colonial até o Presente". Ela também é a autora do livro Deadly Monopolies: The Shocking Corporate Takeover of Life Itself - and the Consequences for Your Health and Our Medical Future (tradução livre "Monopólios Mortais: A Tomada Corporativa Chocante da Própria Vida - E as Consequências para a sua Saúde e seu Futuro Médico").

Obrigado por se juntar a nós, Harriet.

HARRIET A. WASHINGTON, autora de Apartheid médico: Obrigada por me receber.

Desvarieux: Então, Harriet, a grande novidade é que este soro, o ZMapp, que me referi na introdução, foi oferecido aos dois profissionais de saúde americanos, e agora eles parecem estar se recuperando. Por que ele não tem sido mais amplamente disponibilizado?

WASHINGTON: Bem, o que nos é dito é que não tem sido mais amplamente disponibilizado porque havia inicialmente apenas três doses. É claro, a minha primeira pergunta foi, por que não foi dada a Sheik Omar Khan, o profissional de saúde chefe do ebola em Serra Leoa, que morreu apenas a pouco mais de uma semana de Ebola?

Desvarieux: Então na raiz de tudo isso você diria - essencialmente, de quem é o interesse para que o ZMapp não fosse mais amplamente disponibilizado?

WASHINGTON: Bem, é uma questão muito complexa. E eu acho - eu não estou disposta a personalizá-la. Ao invés de perguntar se uma pessoa tem uma inclinação para negar a cura aos africanos, a minha pergunta é: que forças tendem a separar medicamentos como este dos africanos? Há redes, redes informais às vezes, de disponibilidade, que estão disponíveis para os ocidentais e não aos africanos.

E há também as pressões econômicas. As decisões sobre o custo de produzir uma grande quantidade suficiente de doses da droga para dar aos africanos é uma proposta cara, como sempre é, e isso é um fator também. Há uma percepção entre alguns que seria muito caro para produzir para os afro-americanos. Mas meu ponto que eu sempre observo é que eles falam sobre o custo, mas eles estão realmente se referindo é o preço: é a decisão de um fabricante para impor um determinado preço, e isso é o que o coloca fora do alcance de pessoas no mundo em desenvolvimento.

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Desvarieux: Sim. E estar fora do alcance de pessoas em um mundo em desenvolvimento, quero dizer, vão haver algumas consequências reais. Como mencionei na introdução, 1.700 pessoas foram afetadas. Mais de 900 pessoas morreram de Ebola. Então, podemos citar alguns nomes aqui? Quais tipos de empresas farmacêuticas nós estamos falando? 

WASHINGTON: Eu não estou disposta a individualizá-las pelo nome, porque o que é interessante sobre isso é que, embora a maioria das empresas farmacêuticas sejam culpadas de uma mentalidade econômica que lhes diz para não produzir medicamentos para as necessidades das pessoas no mundo em desenvolvimento, um economista de Harvard, Michael Kremer, escreveu há algum tempo sobre essa tendência das empresas farmacêuticas de até mesmo não testarem drogas para doenças das terras tropicais, porque as pessoas de lá, entre aspas, não podem comprá-las. Na verdade, se você olhar para os dados, entre 1975 e 1997, houveram 1.233 medicamentos desenvolvidos por empresas farmacêuticas. Adivinhe quantos foram destinados para o uso de pessoas que viviam em países em desenvolvimento?

Desvarieux: Quantos?

WASHINGTON: Quatro.

Desvarieux: Uau. Apenas quatro.

WASHINGTON: Sim.

Desvarieux: Então, para você, no final das contas, eles poderiam estar testando estas drogas em nações em desenvolvimento, mas certamente não está olhando para essas nações em desenvolvimento como sendo o seu mercado para essas drogas.

WASHINGTON: Exatamente. Eles certamente estão testando estas drogas em nações em desenvolvimento. De fato, dois de cada cinco ensaios clínicos montados pela indústria são realizados no mundo em desenvolvimento. Eles vão para o mundo em desenvolvimento não porque eles querem fazer medicamentos disponíveis para as pessoas de lá, mas porque o teste é mais barato e mais rápido, e tempo é dinheiro em testes. Eles têm uma janela estreita  na qual obtêm a aprovação. Por isso, é benéfico para estas empresas irem a estes países e obterem voluntários ingênuos para testes, que não têm qualquer tipo de cuidados de saúde, para que eles tenham pressões especiais para obter qualquer cuidado médico que eles possam ter, mesmo quando vem embrulhado em torno de um ensaio clínico. E eles podem fazer isso de forma mais barata, eles podem fazê-lo mais rapidamente, eles podem fazer mais ensaios de alta qualidade, pois os profissionais de saúde no mundo em desenvolvimento pedem e fazem menos dinheiro.

Então, eu sempre digo que, embora as pessoas retratem os africanos como pobres e falem sobre sua incapacidade de pagar os medicamentos, na realidade, somos os únicos que devemos a eles. Eles estão tornando essas drogas possível. Eles estão tornando o desenvolvimento destas drogas possível. Eles, no entanto, não têm acesso à elas. Então, nós estamos realmente em dívida com eles. Se tivermos que pagar uma grande quantia de dinheiro para tornar as drogas para o Ebola disponíveis para essas pessoas, é o que precisamos fazer, não só do ponto de vista ético, mas do ponto de vista econômico. Isso seria justiça econômica.

E não podemos, é claro, esquecer o fato de que não sabemos como e para onde o Ebola vai se espalhar. Ele nunca pode se tornar um problema no mundo ocidental, devido à nossa melhor estrutura de saúde e nossa melhor infra-estrutura de saúde pública, mas se isso acontecer, nós vamos precisar desses medicamentos. E você não prefere ter uma droga contra o Ebola que já foi testada em um ensaio clínico? Então, é a nossa vantagem, não importa como você olha para ela. É a coisa certa a fazer.

Desvarieux: Certo. Vamos girar e falar sobre a reação dos americanos sobre mais este vírus. Parece ser uma espécie deste nível de histeria aqui nos Estados Unidos. Por exemplo, o bilionário Donald Trump, ele twittou esta mensagem. Dê uma olhada nisso.

"As pessoas que vão para lugares distantes para ajudar são grandes, mas devem sofrer as conseqüências!"

Harriet depois de ouvir isso, qual é a sua resposta?

WASHINGTON: É Trump puro. Eu não sei por que nós damos atenção a esse palhaço, francamente. Quero dizer, eu espero que ele não represente a mentalidade da maioria das pessoas. Esta é apenas uma resposta especialmente insensível e, francamente, desinformada. Eu nem tenho certeza de que isso exija resposta.

Mas, para aquelas pessoas, eu acho que é uma pergunta interessante, e que ele conseguiu perder completamente, e isso é, quando falamos sobre quem vai obter o medicamento, eu acredito que as pessoas que são afetadas e em situação de risco na África, deveriam obter o medicamento. Muitas pessoas dizem que deveriam ser os profissionais de saúde que deveriam receber a droga primeiramente. Eu entendo o ponto deles. Eles dizem que os profissionais de saúde devem receber a droga em primeiro lugar, porque a África precisa de mais profissionais de saúde, precisa de mais pessoas para lidar com epidemias de Ebola. E também dizem que os trabalhadores da saúde estão lá por altruísmo e generosidade. Eles não tinham que estar lá e se exporem a danos, aqueles são heróis médicos. Eu não poderia concordar com isso mais. Mas também dizem que os profissionais de saúde que vão para o mundo em desenvolvimento para ajudar as pessoas lá, especialmente em uma crise como esta, devem ser agradecidos e devem ser enaltecidos, mas eles tomaram a decisão por razões próprias e eles precisam assumir os riscos inerentes a essa escolha.

Desvarieux: Certo. Vamos fazer uma pausa na conversa aqui, e na nossa segunda parte da entrevista, nós vamos entrar em como as nações do Oeste Africano estão tentando conter a propagação do vírus e os desafios que eles enfrentam.

Harriet Washington, muito obrigada por se juntar a nós.

WASHINGTON: Obrigada.

Desvarieux: E obrigado por se juntar a nós em The Real News Network.



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Fontes:
The Real News: The Politics of the Ebola Serum - Harriet Washington on the Ebola Outbreak (1/2)

Via: http://www.anovaordemmundial.com/2014/08/zMapp-e-a-africa-as-politicas-do-soro-contra-o-ebola-parte-1.html#ixzz3ABXWHrTe



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